ENSAIO: DO TEMPO

Maio 14, 2021 ·

MANUEL MARIA CARRILHO
Filósofo
Depois de ler Foucault e Sartre, descobri de imediato a noção da dimensão tempo. Do aqui e agora. E do depois e do mais logo. Durante anos, procurei a resposta a uma pergunta simples à qual retornava várias vezes ao dia: “Que horas são?”
Como é óbvio, as leituras de outros enormes autores como Kant, Descartes ou Marx (tem um estudo muito interessante e menosprezado sobre a passagem do tempo na classe operária da Inglaterra oitocentista; recomendo) e, o mais importante de todos neste domínio, Aristóteles.
Mas, se me perguntam, o que dizem estes mestres do pensamento ocidental sobre o tempo posso assegurar que muito e, ao mesmo tempo, pouco. O tempo, enquanto categoria filosófica continua a ser uma incógnita gigantesca e são muitos mais os que se questionam do que aqueles que respondem. Aliás, se consultarem a plataforma Quora, o número de perguntas sobre tempo representa já hoje mais de 14% de todas as perguntas lá colocadas.
Mas, como filósofo e leitor de obras difíceis como a “Crítica da razão Pura” ou o “Manifesto do Partido Comunista”, estou empenhado em ser o primeiro em desenvolver um racional essencial, claro e seguro que ajude as pessoas.
Após uma longa pesquisa online, fui à FNAC do Chiado e comprei um relógio digital, certo de que este instrumento indispensável dos dias de hoje  me traria toda uma outra visão do tema. E, depois de 19 meses de pesquisa e de mais leituras, cheguei a uma questão paradigmática e inultrapassável.
Fiz esta experiência durante 18 dias e 18 noites. O relógio consegue medir os passos percorridos, dados científicos que, depois, transforma em perda de calorias e em metros de distância. Esse foi o logro em que caí, sem me aperceber nos primeiros dias.
Quando acordava, colocava imediatamente o relógio no pulso para ter um registo exacto, cientificamente comprovado e estatisticamente válido (sou, como sabem, um filósofo de forte pendor experimentalista). Até que, ao quarto dia, verifiquei melhor e, ainda estava deitado na cama sozinho, e o relógio já assinalava 678 passos.
Como seria isto possível? Isto ultrapassava até as mais duras  convicções de um leigo quanto mais as de um filósofo. Durante os dias seguintes criei rotinas e fui cercando a dúvida com novas evidências. Quem andaria com o meu relógio durante a noite (questão quase policial)?
Pois, ao fim de 13 dias, cheguei a uma evidência que  agora partilho pela primeira vez: na manhã seguinte, os passos que o relógio assinalava (correspondentes à minha ida ao WC e à cozinha beber um copo de água), apesar de serem feitos antes de me deitar, eram contabilizados já no dia seguinte pois era depois da meia-noite.
Mas, a dúvida persiste: os passos dados depois da meia-noite antes de me deitar, deverão ser contabilizados como passos do dia de hoje ou do dia de ontem? As calorias perdidas: são consideradas em que dia? Quem tem, efectivamente, o livre arbítrio e pode ter uma dúvida metódica tão simples quanto esta: Os passos de ontem são de passos de hoje também. Ou, sendo passos dados ontem mas depois da meia-noite, não podem em absoluto ser considerados como passos de hoje? O corpo e a praxis estarão desavindos de vez? Que implicações tem tudo isto na escrita de autores como Raul Minh’alma ou José Rodrigues dos Santos? Dan Brown já tinha sido premonitório e havia colocado os seus romances em espaços em que não havia relógios digitais. Umberto Eco, sempre muito vivo e activo, quando escreveu O Nome da Rosa foi subtil e, nem por uma vez, escreveu a palavra relógio.
Assim sendo, de interpretação em interrogação, de suposição em investigação, estou quase a chegar ao cerne do problema: a questão do tempo é, de facto e para todo o sempre a grande questão.
Mas o ecossistema conceptual da razão irá sempre sobrevalorizar a cruel realidade dos calendários.
Regressemos às origens cristãs ou acompanhemos os escritos de Darwin, uma coisa é certa: “o tempo, esse grande escultor” nas belas palavras de Yourcenar, será sempre um mistério. Até quando?

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